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Carta Pastoral 2013-2014 

O Sínodo Diocesano

Em Comunhão para a Missão: participar e testemunhar

Estamos no momento decisivo do Sínodo da nossa diocese de Viseu. Pela sua importância, para o presente e o futuro desta nossa Igreja, venho pedir o maior interesse, empenho e dedicação de todos os cristãos, nestes dois próximos anos. Na verdade, o Sínodo não se faz à margem dos cristãos – leigos, religiosos e sacerdotes – nem pode dispensar o seu contributo. Todos somos essenciais para que o Sínodo realize os efeitos que persegue e conduza aos frutos que, desde o seu início, programa, anuncia e deseja.

Depois de termos sido chamados a olhar o Concílio Vaticano II como ponto de partida e referência para a renovação desta nossa Igreja de Viseu (tendo em conta as 4 Constituições fundamentais), estamos no momento certo para, nos próximos 2 anos e nos vários momentos da Assembleia Sinodal, elaborarmos e aprovarmos as orientações a seguir. Estas terão em conta a análise feita no percurso realizado e as inspirações que nos surgiram, em todo o caminho feito, à luz de cada uma das Constituições: Lumen Gentium, Dei Verbum, Sacrosanctum Concilium e Gaudium et Spes. Não queremos copiar referências, exemplos e respostas concretas de há 50 anos, pois a Igreja, na Sociedade, é fermento, intérprete, orientadora e libertadora no caminho que nos ensina e ajuda a percorrer, sendo sempre “nova” e anunciando sempre o “novo”… Porém, se estes 4 Documentos foram, há 50 anos, a “chave de leitura” da Igreja, eles são, ainda hoje, “sinais dos tempos” para o período pós-conciliar e luz para os desafios que a sociedade pós-moderna – quase pós-cristã – nos apresenta. Uns e outros desafiam-nos a tecer as linhas para construir e viver a Igreja que, caminhando com Jesus e seguindo-O fielmente, O apresente como Amigo, Próximo e Libertador a todas as pessoas e em todas as situações do nosso tempo.

Enquanto vamos fazendo e percorrendo o caminho que nos está a ser oferecido – preparando, reflectindo e aprovando propostas a apresentar à Assembleia Sinodal – iremos, também, unidos como “Igreja em missão” no século XXI, viver, anunciar e testemunhar a Fé, fazendo-o sempre “em comunhão para a missão”.

Propostas e pressupostos para o Caminho

Desde o início deste percurso, contámos com a presença, ajuda e inspiração de Deus Pai, do Seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo. Este, prometido por Jesus e enviado pelo Pai para ser presença e alma da Igreja, é Guia e Mestre da nossa vida, em caminho de conversão permanente.

O século XXI será o século da interioridade e do discernimento das opções mais válidas, acolhendo-as e assumindo-as na vida pessoal, eclesial e comunitária ou não será tempo decisivo de crescimento da paz e da verdade, numa Sociedade cheia de experiências dúbias de valor e muito vazias de esperança.

Os cristãos são chamados a discernir os tempos actuais e a fazer opções a partir da alma das pessoas e dos povos e do cerne das estruturas e dos critérios de decisão. Com a organização social aberta – porque sem fronteiras ou limites de qualquer espécie – urge viver e testemunhar valores que sejam inquestionáveis para os (tantas vezes dúbios) critérios das sondagens, das maiorias ou das estatísticas. Urge respeitar e afirmar o ser, o acreditar e o viver, não com slogans de fidelização dúbia e insegura mas com valores de experiências de vida afirmada, vivida e provada.

Assim, de acordo com o Plano Pastoral para a diocese de Viseu, a viver em Sínodo, e em comunhão com os princípios de fé, de esperança e de confiança, agora reafirmados, propomo-nos:

a) Fomentar um tempo de oração e de adoração semanal em cada Unidade Pastoral.

Propõe-se que, semanalmente em cada Unidade Pastoral – ou num conjunto de paróquias mais próximas – e contemplando as diversas paróquias da mesma, se organizem tempos de oração e adoração. A programação e realização de actividades deve assentar, começar e rever-se na oração e na comunhão com o Senhor, o Bom Pastor. Esta firme comunhão com Jesus é a base para a vivência, o anúncio e o testemunho – alegre e confiante – dos valores da Fé, da Esperança e do Amor, vivendo, testemunhando e ensinando o Evangelho como Caminho, Verdade e Vida de cada cristão.

Sabemos, todos nós, que Jesus é a fonte de vida das comunidades cristãs e só n’Ele radicam as melhores e mais definitivas esperanças humanas. Ninguém chega ao Pai se não passar por Ele, pois só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida para todos os que vêm a este mundo. Importa que tenhamos presentes estes princípios que são do próprio Senhor Jesus – e importa que estejam bem visíveis nas nossas programações – acreditando que, sem Ele, nada podemos fazer e só n’Ele, com Ele e por Ele nós encontraremos a vida e a salvação.

É Jesus a Cabeça e, ao mesmo tempo, a Fonte da Vida da Igreja. É Ele Quem prepara o coração dos que ouvem o chamamento ao apostolado, seja no sacerdócio, na vida religiosa ou na construção de uma família. É Ele o Mestre e o Pastor que forma os que vêm para os nossos Seminários.

b) Criar oportunidades e momentos específicos de graça como é um Retiro Espiritual.

 A Igreja é uma Comunidade específica, centrada na vida de Jesus e na Sua mensagem. É chamada a alimentar-se desta vida e a transmiti-la a todos, como vida gratuita e abundante que realiza, na plenitude da esperança e da alegria, todos os que dela e por ela vivem. De forma visível e explícita, nem todos sentem fome desta vida que Jesus é e dá. Porém, devemos anunciá-la, propô-la e distribuí-la, tornando-a acessível de forma abundante, e não somente pela Eucaristia.

O acesso e a oportunidade do encontro, da conversão e da vivência da Eucaristia passam pela intimidade de conversa e de proximidade com a oração. Todos nós somos convidados a acreditar que Jesus tem os Seus planos e cria, Ele próprio, oportunidades para Se fazer próximo e companheiro no caminho dos que ama e chama e a quem quer falar, comunicando-lhes planos e projectos a viver, pessoal e eclesialmente.

Por opções de vida e por circunstâncias e consequências que marcam as mesmas opções, nem todos os cristãos podem viver, da mesma forma, a participação na comunhão eucarística. A comunhão espiritual, realizada na proximidade e na relação possíveis, permite a intimidade orante de quem, com amor e fé, se aproxima e procura viver em coerência.

Para todos os que o desejem, somos convidados a provocar felizes experiências de oração pessoal, ajudadas por orientadores que estimulem, ajudem e provoquem o encontro e a relação orante. Sejam jovens, adultos ou crianças; individualmente ou em grupo; em casal ou em família; ligados a movimentos ou membros de grupos, serviços e/ou ministérios eclesiais, na unidade pastoral e no arciprestado; seja organizando experiências locais ou aderindo a propostas de movimentos e/ou de outros serviços diocesanos… Tudo deve fazer parte de um projecto/programa pastoral, nas Unidades Pastorais, nas Paróquias e nos Arciprestados, de forma especial no plano dos próximos anos.

Tenhamos bem presente: o serviço missionário nas “periferias” da nossa missão pastoral – necessário e urgente – somente resulta se não descuidamos o poder e a capacidade do fermento activo na acção com todos os que são chamados a vir e a ver o testemunho dos que crêem.

c) Constituir uma oportunidade de Iniciação Cristã que seja Escola de Fé na Unidade Pastoral.

 Na Diocese têm sido feitas algumas experiências de formação cristã, em paróquias e em arciprestados, que têm ajudado a iniciar na vida cristã e a aprofundar as opções de vida eclesial e comunitária. Por vezes, a proposta não tem muita adesão e, quando apresentada, é vista como desinteressante. Porém, para os que aderem, torna-se uma experiência humanamente rica e espiritualmente fecunda. O cristianismo passa a ser visto como vida e não como fria doutrina. Ser cristão aparece, então, como mais-valia para a vida, aumentando a auto-estima pessoal de seguidor de Jesus e de membro da Igreja, enquanto Comunidade cristã.

Distinguindo o livremente proposto do obrigatório – como acesso aos Sacramentos e a outros momentos de vivência e de celebração da Fé – devemos propor, sempre e a todos os que nos vêm pedir alguma coisa, um caminho de aprofundamento da fé e da vida cristã. Importa ter presente – deixando bem claro a quem nos procura – que ser cristão não é cumprir leis e sujeitar-se a imposições, apresentadas e vistas como algo frio, exterior e legalista… Ser cristão e fazer parte da Igreja é aderir a uma Pessoa e ser membro de uma Comunidade. É escolher Jesus como o Salvador e aderir à Igreja como a Comunidade dos que seguem Jesus – os cristãos.

Em conclusão: ser cristão e fazer parte da Igreja é aderir a Jesus Cristo numa Comunidade, conhecer Quem Ele é e o que Ele propõe. Ser cristão e fazer parte da Igreja é conhecer, também, o que a Igreja é, faz e propõe para dela fazer parte e, em conjunto com todos os outros cristãos, ser Povo de Deus.

Pode haver quem queira conhecer Jesus e aderir a Ele sem aceitar fazer parte da Igreja e cumprir o que a Igreja propõe… Pode haver quem se sinta atraído por Jesus Cristo e pelo Evangelho e não aceite a Igreja e as suas regras… Deve haver oportunidade de se fazer este caminho… Porém, quem o quer fazer sem aderir à Igreja, não pode exigir da Igreja os Sacramentos que a Ela foram confiados e dos quais Ela é garantia, guarda, juiz e responsável pela sua vivência e distribuição…

É bom e desejável que qualquer pessoa possa aprofundar a sua relação com Jesus e aperceber-se do modo de acreditar e de viver dos cristãos que fazem parte da Igreja, na Comunidade concreta. Só ouvindo, vendo e privando com testemunhas próximas de Jesus se pode conhecer a vida dos cristãos…

Perguntemo-nos então: nós, os cristãos, estamos preparados para passar nesta prova de verdade e de autenticidade? As nossas Comunidades – pelo que dizem, fazem e vivem – são testemunhas autênticas de Jesus e do Seu Evangelho? As nossas Eucaristias celebram, anunciam e apresentam Jesus Ressuscitado? Na nossa vida está patente o Evangelho da verdade, da fraternidade e do amor?

Tenhamos bem presente: somente quem aceita ser parte da Igreja pode compreender e viver os Sacramentos e outros momentos e dimensões da Comunidade cristã. Somente quem aceita ser e fazer parte da Igreja pode assumir tarefas e responsabilidades que a visibilizam e a tornam referência para todos, quer nas celebrações que são a sua vida quer nas instituições que a representam.

Devem ser preocupações, cada vez maiores, para todos os membros da Comunidade – desde o Bispo, ao Padre, a todos os outros agentes da acção pastoral – celebrar bem a Eucaristia (sobretudo o Domingo), os Sacramentos e as celebrações da Palavra, preparando bem estes momentos fortes da vida comunitária; acolher e informar bem as pessoas que se dirigem à Comunidade, pedindo qualquer informação; apresentar meios e propostas de informação e de formação às pessoas que querem fazer algum caminho na Comunidade; ter, divulgar e distribuir às pessoas – também às “ausentes” e às que vivem nas “periferias” – propostas que a Comunidade tem, oferece e se propõe viver; ser Comunidade acolhedora e caritativa para todas as pessoas que, mesmo não fazendo parte, estão em situação de carência e de necessidade material, seja de forma habitual ou circunstancial… Ter presente o testemunho de amor dos primeiros cristãos e como este testemunho era fundamental na adesão a Jesus Cristo, na Igreja!

d) Ser Igreja missionária e capaz de acolher todas as pessoas que batam à porta da Igreja.

Sirvam como boas ilustrações – e para vivermos bem este ponto que deve ser muito bem cuidado nas nossas Comunidades – tantos exemplos bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento.

A todo o que bate à “porta da Igreja” – pedindo ou exigindo, por vezes sem condições e sem paciência (…) – o acolhimento que se faz e a resposta que se dá são sinais essenciais e decisivos para que, quem bate e vem, se sinta acolhido e com vontade de conhecer melhor a Casa, à qual Jesus convida a todos: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos e aliviar-vos-ei…” (Mt 11, 28-30).

Devemos imaginar tudo o que pode ter ocasionado a distância, a frieza e a revolta – tantas vezes com culpas da própria instituição eclesial – para semelhantes reacções. Uma pessoa que acolhe bem (e com o coração), dando uma resposta que inclua e compreenda as razões da distância e frieza (…), são gestos e atitudes suficientes para fazer um acolhimento integrador na Casa comum, onde Cristo é Senhor e Mestre e nunca Juiz condenador.

Todos nós – Bispo, Sacerdotes, Leigos e Religiosos – somos os maiores beneficiados da misericórdia, compreensão e amor do Bom Pastor. Devemos recordar o espírito de perdão, descrito por S. Mateus e como fazer uso da misericórdia recebida (cf Mt 18, 21-35).

À Igreja não pertencem somente pessoas puras e santas… A Parábola da pesca e da rede que acolhe toda a casta de peixes mostra a diversidade da riqueza e da pobreza dos membros da Igreja que todos somos e formamos (cf Mt 13, 47-50). O tempo da Igreja proporciona e oferece caminhos e oportunidades de purificação, de conversão, de opções de vida, de escolhas de libertação que, seguindo Jesus, trazem e alimentam uma vida nova e feliz. O testemunho e a experiência deste caminho, no bom e fraterno acolhimento a quem está fora, são preciosa ajuda para todos os que, integrando-se ou não na Igreja, experimentam a vida nova oferecida por Jesus a todos os que O conhecem e O seguem.

Tenhamos sempre presente: nenhum cristão tem o exclusivo da Lei, do Evangelho, do Coração do Pai. Sabemos como somos convidados a contar com a Misericórdia de Deus a nosso respeito e para as nossas falhas… Não usemos nunca de medida estreita para avaliarmos os critérios de acolhimento e de entrada na Casa do Pai! A Igreja é Casa de Salvação para todos os que A procuram e batem à porta. Demos graças a Deus por nos chamar a ser testemunhas da Sua bondade, do Seu amor e da Sua graça. N’Ele, somos intermediários para todos os que, através de nós, se aproximam da Igreja e, nela, se encontram com Deus, com o amor e o perdão do Pai.

Unido na vivência e concretização do Sínodo na nossa Diocese de Viseu, o bispo e irmão

Ilídio Pinto Leandro

VISEU, 2 de Setembro de 2013